In Verbis: outubro 2005

31 outubro 2005

Verão de S. Martinho


Segundo a lenda, um soldado Romano de nome Martinho, ia no seu cavalo, num dia de tempestade, tapado com uma capa quentinha, quando encontrou um pobre a tremer de frio. Então, tirou a capa dos ombros e deu-a ao pobre. Deus, ao ver a bondade de Martinho fez o milagre de transformar a tempestade num belo dia de sol. Desde ai, todos os anos, por esta altura, pára o frio e a chuva e aparecem uns dias mais quentes. O povo até lhe chama o Verão de S. Martinho!

18 outubro 2005

O V Império


Depois do que o Padre António Vieira no séc. XVII e Fernando Pessoa, mais recentemente, escreveram sobre o tema, este, parece contudo, não estar esgotado. Falar do V Império é falar como se de um mito se tratasse. O grande sonho e projecto para o nosso país que foi alimentado durante muitos e muitos anos parecem cada vez mais ter deixado de fazer qualquer sentido.

Portugal conheceu ao longo da sua história, à semelhança de tantas outras nações, diversos períodos, que se alternaram entre o que podemos qualificar de bons e maus. Vivemos momentos de desespero e de esperança. Após o Estado Novo, verdadeira idade das trevas, conhecemos há pouco mais de 30 anos uma nova fase na nossa história. Porém o que fizemos para crescer neste período de tempo? O que foi feito para nos expandirmos e nos desenvolvermos? Quantos actos eleitorais já foram realizados desde 1974?

Pasmo ao verificar que a maioria do eleitorado português, de um modo obstinado, teima em dar os votos de confiança a uma classe política que de classe possui pouquíssimo. Permanecemos numa alternância entre os governos vigentes e as oposições. Hoje, o governo é o partido político que antes das últimas eleições era oposição. Nas próximas, o actual governo voltará, provavelmente, à condição de opositor político, e assim sucessivamente.

É lícito perguntar: ATÉ QUANDO? A verdade inquestionável é de que os anos se vão sucedendo e os problemas maiores da nossa sociedade não encontram solução.

O povo português continua cega e credulamente a votar no Partido A ou no B para que um novo ciclo se repita até ás próximas eleições. Será que ainda não se apercebeu de que estamos numa roda que gira em permanência e da qual não se consegue sair e donde não se evidencia nada de positivo para o futuro? Será suficiente perguntar ao cidadão comum e anónimo que esperanças tem para o país num futuro a curto prazo. As sondagens mostram-no claramente. O negativismo é generalizado e um facto dado como adquirido. Em Portugal brinca-se aos políticos abusivamente. Mas como bem sabemos, a culpa não morre só. A própria cultura do povo, uma cultura excessivamente permissiva, pacífica, baseada no lema do “deixa andar”, tem feito desenvolver junto dos diversos políticos uma tendência para o fazer o que se quer. Chefes de Estado que não buscam mais do que um desenfreado e desnecessário protagonismo político. E tudo se passa com um realce noticioso incrível pelo que as pessoas não poderão dizer que desconhecem os assuntos – simplesmente não se interessam mais por politiquices. É bem mais interessante o derby futebolístico da próxima jornada desportiva, as telenovelas, os talk e reality-shows, o jet-set ou o “jet-oito”, et caetra. Então o que as faz levar ás urnas depositar o seu voto? O dever do sentido de obrigação – noblesse oblige.

Tempos passaram de grandes homens que viveram e fizeram história neste país e dos quais apenas restam escassas memórias. Tempos decorreram em que o povo se rebelava contra as injustiças sociais de diversa natureza. Mas hoje, é diferente. Vivemos na era da passividade em que tudo é permitido – as faltas de educação das pessoas, jovens ou não, o egoísmo colectivo, o autêntico “salve-se quem puder”. Mas, por favor, não me venham com a desculpa de que lá fora também é assim pois para importações de modas de gosto duvidoso já basta.

Como disse o poeta na sua célebre Mensagem: Senhor, falta cumprir-se Portugal!

03 outubro 2005

O Mau Gosto


Com a aproximação das eleições para as autarquias no próximo dia 9 do corrente, grande parte das obras públicas iniciadas há meses, vivem agora um aceleramento total. Esta situação não é de todo desconhecida para a maior parte dos autarcas salvo para os que ainda permanecem em estado de profunda letargia.

Na pacata vila da Ericeira, uma das 17 freguesias do concelho de Mafra, vive-se igualmente um clima de alguma agitação nas ruas devido ás diversas obras em curso. Nela, na Ericeira, é ver rotundas novas, jardins, arruamentos em fase de acabamento. Isto para além, obviamente, dos prédios que irrompem quase semanalamente como se de cogumelos se tratasse, embora esta situação perdure ao longo do ano não sendo exclusiva da época eleitoral que se vive.
Apesar do Parque de Santa Marta parecer estar longe da sua conclusão, embora findos os 210 dias anunciados pela empresa construtora, o que vale mesmo a pena visitar neste momento é o adro da Igreja de Santa Marta. Apesar da obra não estar ainda concluida, vislumbra-se o seu final. Trata-se de uma obra publica de mau gosto total.

Entendeu-se por bem substituir no adro bem como na sua área circundante, a zona verde composta por relvado e pequenos arbustos por uma inacreditável escadaria em mármore assim como por uns bancos no mesmo material que mais parecem pedras tumulares. Ver para crer.
Não posso deixar de formular as seguintes questões:

1 - Como é possível desenhar um projecto de gosto tão duvidoso ?
2 - Como se autoriza construir semelhante barbaridade arquitectónica ?
3 - Será que as gentes da Ericeira estarão a ser punidas pelo seu passado colectivo ?

Não encontrei ninguém ainda que aprovasse ou gostasse desta deformidade quer se trate de residentes locais quer de visitantes pontuais.
Assim sendo, espero que os munícipes deste concelho, em especial os ericeirenses, caso estejam satisfeitos com a obra feita pela CMM (Câmara Municipal de Mafra) não se esqueçam de cumprir o seu acto eleitoral no próximo dia 9 de Outubro podendo assim esperar nos 4 anos vindouros por mais atrocidades no que respeita a obras públicas.
... a não ser que não estejam satisfeitos, claro.

Post Scriptum
: Sonhei, numa destas noites, que iria ser construido um prédio de 12 pisos no adro da Igreja Paroquial na Ericeira. Acordei num sobressalto com tal pesadelo.
Ao tentar adormecer de novo, ainda pensei: "...bem, se tiver só 4 pisos não ficará muito diferente dos outros."

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