In Verbis: O V Império

18 outubro 2005

O V Império


Depois do que o Padre António Vieira no séc. XVII e Fernando Pessoa, mais recentemente, escreveram sobre o tema, este, parece contudo, não estar esgotado. Falar do V Império é falar como se de um mito se tratasse. O grande sonho e projecto para o nosso país que foi alimentado durante muitos e muitos anos parecem cada vez mais ter deixado de fazer qualquer sentido.

Portugal conheceu ao longo da sua história, à semelhança de tantas outras nações, diversos períodos, que se alternaram entre o que podemos qualificar de bons e maus. Vivemos momentos de desespero e de esperança. Após o Estado Novo, verdadeira idade das trevas, conhecemos há pouco mais de 30 anos uma nova fase na nossa história. Porém o que fizemos para crescer neste período de tempo? O que foi feito para nos expandirmos e nos desenvolvermos? Quantos actos eleitorais já foram realizados desde 1974?

Pasmo ao verificar que a maioria do eleitorado português, de um modo obstinado, teima em dar os votos de confiança a uma classe política que de classe possui pouquíssimo. Permanecemos numa alternância entre os governos vigentes e as oposições. Hoje, o governo é o partido político que antes das últimas eleições era oposição. Nas próximas, o actual governo voltará, provavelmente, à condição de opositor político, e assim sucessivamente.

É lícito perguntar: ATÉ QUANDO? A verdade inquestionável é de que os anos se vão sucedendo e os problemas maiores da nossa sociedade não encontram solução.

O povo português continua cega e credulamente a votar no Partido A ou no B para que um novo ciclo se repita até ás próximas eleições. Será que ainda não se apercebeu de que estamos numa roda que gira em permanência e da qual não se consegue sair e donde não se evidencia nada de positivo para o futuro? Será suficiente perguntar ao cidadão comum e anónimo que esperanças tem para o país num futuro a curto prazo. As sondagens mostram-no claramente. O negativismo é generalizado e um facto dado como adquirido. Em Portugal brinca-se aos políticos abusivamente. Mas como bem sabemos, a culpa não morre só. A própria cultura do povo, uma cultura excessivamente permissiva, pacífica, baseada no lema do “deixa andar”, tem feito desenvolver junto dos diversos políticos uma tendência para o fazer o que se quer. Chefes de Estado que não buscam mais do que um desenfreado e desnecessário protagonismo político. E tudo se passa com um realce noticioso incrível pelo que as pessoas não poderão dizer que desconhecem os assuntos – simplesmente não se interessam mais por politiquices. É bem mais interessante o derby futebolístico da próxima jornada desportiva, as telenovelas, os talk e reality-shows, o jet-set ou o “jet-oito”, et caetra. Então o que as faz levar ás urnas depositar o seu voto? O dever do sentido de obrigação – noblesse oblige.

Tempos passaram de grandes homens que viveram e fizeram história neste país e dos quais apenas restam escassas memórias. Tempos decorreram em que o povo se rebelava contra as injustiças sociais de diversa natureza. Mas hoje, é diferente. Vivemos na era da passividade em que tudo é permitido – as faltas de educação das pessoas, jovens ou não, o egoísmo colectivo, o autêntico “salve-se quem puder”. Mas, por favor, não me venham com a desculpa de que lá fora também é assim pois para importações de modas de gosto duvidoso já basta.

Como disse o poeta na sua célebre Mensagem: Senhor, falta cumprir-se Portugal!

2 Comments:

At 2:28 p.m., Anonymous Anónimo said...

Caro Paulo,

Vivemos num País onde Fatinha Felgueiras, Valentim e Isaltino foram recentemente - e democraticamente - eleitos para Presidentes de Câmara.

(pequena pausa para reflexão, caso ainda não o tenhas feito)


Parece-me que a maioria da malta tem aquilo que merece.

Quero aproveitar para felicitar-te pelo Blog.
Não tenhas dúvidas que irei regressar.

Teresa

 
At 9:56 p.m., Anonymous Anónimo said...

Amigo Paulo,
O zero Império seria mais apropriado para os apontamentos nele referidos. Que se pode esperar de um Povo, sem ambições. "Nós" somos pequenos burguêses, que vivemos alem das nossas possibilidades, talvez por inveja do semelhante, que apenas austenta o que não tem. Não há por onde pegar. Mas você não desista nem que seja como o Profeta, que tambem pregou no deserto. Um abraço Almeida Silva

 

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